
Quando se fala em autoestima, é comum pensar imediatamente em gostar da própria aparência ou sentir confiança o tempo inteiro. Na vida real, porém, a relação que construímos conosco é bem mais complexa.
Autoestima também pode envolver a maneira como reconhecemos nossas necessidades, estabelecemos limites, lidamos com críticas, fazemos escolhas e nos posicionamos nas relações. Em alguns momentos, talvez você perceba que exige de si algo que jamais exigiria de outra pessoa. Em outros, pode notar que a opinião alheia passou a ocupar um espaço muito grande nas decisões.
Esses movimentos não surgem do nada. Eles fazem parte de uma história e de uma maneira particular de se relacionar consigo e com o mundo.
Autoestima não é sentir-se bem o tempo todo
Ter uma relação mais saudável consigo não significa gostar de tudo em si, sentir segurança em todas as situações ou deixar de se importar com a opinião das outras pessoas. Também não significa permanecer imune às críticas, às rejeições e às experiências de fracasso.
Existem momentos em que podemos duvidar da própria capacidade, sentir vergonha, comparar nossa trajetória com a de alguém ou desejar mudar algum aspecto da vida. Essas experiências, por si só, não indicam necessariamente um problema de autoestima.
A questão merece maior atenção quando a insatisfação consigo se torna constante e passa a interferir nas escolhas, nos relacionamentos e na forma de ocupar os diferentes espaços da vida. A pessoa pode começar a acreditar que precisa corresponder às expectativas alheias para ser aceita, evitar situações por medo de não ser boa o bastante ou permanecer em relações nas quais suas necessidades são frequentemente desconsideradas.
Como essa relação consigo é construída?
A autoestima não se forma isoladamente. Desde os primeiros anos de vida, vamos construindo uma percepção sobre quem somos a partir das relações, das experiências e das respostas que recebemos do ambiente.
Ser reconhecido, acolhido e respeitado pode favorecer a construção de uma percepção mais segura de si. Por outro lado, experiências frequentes de crítica, rejeição, comparação, humilhação, negligência ou exigência excessiva podem contribuir para que a pessoa aprenda a desconfiar do próprio valor.
Isso não significa que exista uma relação simples ou direta entre uma experiência do passado e a maneira como alguém se percebe hoje. Cada pessoa assimila e organiza sua história de forma singular. Além das relações familiares, também participam dessa construção as amizades, a escola, o trabalho, a cultura, as condições sociais, os padrões de beleza e as experiências de pertencimento ou exclusão.
Ao longo do tempo, algumas mensagens recebidas podem ser incorporadas como se fossem verdades: “preciso agradar para ser aceita”, “não posso demonstrar fraqueza”, “se eu errar, decepcionarei as pessoas” ou “o que faço nunca é suficiente”. Mesmo quando o contexto muda, essas formas de se perceber podem continuar presentes.
Quando a opinião do outro ocupa espaço demais
A maneira como somos vistos pelas outras pessoas tem importância. Somos seres relacionais, e o reconhecimento participa da construção de quem somos. O problema aparece quando a validação externa se transforma na principal medida de valor pessoal.
Nesse caso, uma crítica pode parecer a confirmação de que há algo profundamente errado consigo. Uma resposta mais distante pode ser vivida como rejeição. Uma escolha pode ser abandonada porque alguém não a aprovou. A pessoa pode se adaptar constantemente para evitar conflitos e, aos poucos, perder o contato com aquilo que sente, deseja ou necessita.
Também pode surgir a dificuldade de dizer “não”, de pedir ajuda, de receber elogios ou de expressar uma opinião diferente. Por trás desses movimentos, muitas vezes existe o receio de desagradar, decepcionar ou deixar de ser querido.
Estabelecer limites, então, pode provocar culpa. Priorizar uma necessidade própria pode parecer egoísmo. Descansar pode ser vivido como falta de responsabilidade. Assim, a pessoa passa a organizar a vida a partir do que imagina que os outros esperam dela.
Autocrítica, comparação e exigência
A autocrítica pode ter diferentes funções. Em algumas histórias, cobrar-se intensamente tornou-se uma tentativa de evitar erros, críticas e rejeições. A pessoa acredita que, se conseguir prever todas as falhas e exigir de si um desempenho impecável, talvez esteja protegida de ser julgada.
Entretanto, essa vigilância constante costuma ter um custo. Conquistas são rapidamente diminuídas, enquanto pequenos erros ganham grandes proporções. Em vez de reconhecer o próprio esforço, a pessoa se concentra no que ainda falta. Mesmo quando alcança um objetivo, pode sentir que apenas cumpriu sua obrigação.
A comparação também participa desse processo, especialmente quando se observa somente aquilo que o outro mostra. Nas redes sociais, é fácil comparar as próprias dúvidas, dificuldades e bastidores com imagens selecionadas da vida alheia. Isso pode alimentar a sensação de estar atrasado, ser menos interessante ou não fazer o suficiente.
Mas a comparação não acontece apenas em relação à aparência ou ao sucesso profissional. Ela pode envolver relacionamentos, maternidade, produtividade, sociabilidade, condição financeira e até a maneira como cada pessoa parece lidar com suas emoções.
Quando a autoestima interfere na rotina
Uma relação fragilizada consigo pode aparecer de diferentes formas. Algumas pessoas se tornam mais retraídas e evitam se expor. Outras procuram demonstrar segurança o tempo inteiro, têm dificuldade para admitir vulnerabilidades ou dependem constantemente do reconhecimento externo.
Também podem aparecer:
- medo excessivo de errar ou decepcionar;
- dificuldade para reconhecer qualidades e conquistas;
- necessidade frequente de aprovação;
- desconforto ao receber elogios;
- comparação constante;
- dificuldade de estabelecer limites;
- permanência em relações que causam sofrimento;
- sensação de não merecer cuidado, descanso ou oportunidades;
- abandono de projetos por acreditar que não será capaz;
- autocrítica intensa diante de falhas ou frustrações.
Essas experiências não devem ser utilizadas como uma lista para definir ou diagnosticar alguém. Mais importante é compreender como elas aparecem, qual função possuem e de que maneira interferem na vida daquela pessoa.
Autoestima não depende apenas do esforço individual
Falar sobre autoestima exige cuidado para não transformar uma experiência complexa em mais uma cobrança. Nem sempre basta “pensar positivo”, repetir frases diante do espelho ou fazer uma lista de qualidades.
A forma como uma pessoa se percebe também é atravessada pelo ambiente em que vive. Relações abusivas, preconceito, racismo, discriminação, exclusão social, padrões rígidos de beleza e condições de vida marcadas por insegurança podem afetar profundamente a relação consigo.
Por isso, cuidar da autoestima não significa responsabilizar individualmente alguém por todas as dificuldades que enfrenta. Em alguns casos, será necessário reconhecer que determinada dor não nasceu de uma incapacidade pessoal, mas de experiências nas quais sua dignidade, identidade ou existência foram desvalorizadas.
Uma relação mais cuidadosa consigo
Construir uma relação mais cuidadosa consigo não significa abandonar responsabilidades ou deixar de reconhecer aspectos que precisam ser transformados. Significa poder olhar para as próprias dificuldades sem reduzir toda a identidade a elas.
É possível reconhecer um erro sem concluir que se é uma pessoa incapaz. Receber uma crítica sem aceitar automaticamente tudo o que foi dito. Perceber uma limitação sem ignorar as próprias possibilidades. Também é possível fazer mudanças porque algo passou a ter sentido, e não apenas porque existe vergonha de quem se é.
Essa construção costuma acontecer por meio de pequenos movimentos: perceber uma necessidade antes de ignorá-la, sustentar um limite, aceitar ajuda, reconhecer o próprio esforço, questionar uma cobrança antiga ou escolher algo que faça sentido mesmo sem a aprovação de todos.
Autoestima e psicoterapia
Na psicoterapia, é possível observar essas experiências com mais atenção, sem transformar autoestima em obrigação de pensar positivamente sobre tudo. A proposta é compreender como essa relação consigo tem sido construída e o que aparece no presente.
Na Gestalt-terapia, esse trabalho pode envolver a ampliação da consciência sobre a maneira como a pessoa se trata, as exigências que carrega e o espaço que concede às próprias necessidades. Também é possível observar como ela se posiciona nas relações, o que acontece quando recebe uma crítica, como reage diante de um erro e quais partes de si sente que precisa esconder para ser aceita.
Ao longo do processo, algumas formas antigas de se proteger podem ser reconhecidas e compreendidas. Aquilo que hoje aparece como insegurança, autocobrança ou dificuldade de estabelecer limites talvez tenha sido, em outro momento, uma maneira possível de preservar vínculos, evitar conflitos ou buscar reconhecimento.
Compreender essa história não significa permanecer preso a ela. A psicoterapia pode abrir espaço para experimentar outras maneiras de se relacionar consigo e com os outros, reconhecendo limites, necessidades, escolhas e possibilidades.
Cuidar da autoestima não é construir uma versão idealizada de si. É poder se encontrar com mais honestidade e respeito, inclusive nos momentos em que há dúvidas, falhas e inseguranças. É reconhecer que o próprio valor não precisa depender de acertar sempre, agradar a todos ou corresponder a todas as expectativas.
Referências
HUTZ, C. S.; ZANON, C. Revisão da adaptação, validação e normatização da Escala de Autoestima de Rosenberg. Avaliação Psicológica, v. 10, n. 1, p. 41–49, 2011.
SCHULTHEISZ, T. S. V.; APRILE, M. R. Autoestima, conceitos correlatos e avaliação. Revista Equilíbrio Corporal e Saúde, v. 5, n. 1, p. 36–48, 2013.
YONTEF, G. M. Processo, diálogo e awareness: ensaios em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1998.
