saúde mental

Gestalt-terapia: uma forma de compreender a pessoa por inteiro

Por Alessandra Conde

A Gestalt-terapia é uma abordagem da psicologia que compreende a pessoa em sua totalidade, considerando sentimentos, pensamentos, relações, história e contexto de vida. Na psicoterapia, o cliente amplia a percepção sobre si, reconhece suas necessidades e desenvolve novas formas de lidar com suas dificuldades.

Ilustração abstrata em tons terrosos e verde, com formas orgânicas sobrepostas, pedras e um pequeno broto. À esquerda, lê-se: “Gestalt-terapia: uma forma de compreender a pessoa por inteiro”.

Quando alguém procura uma psicóloga, é comum encontrar nomes de diferentes abordagens e não saber exatamente o que eles significam. Gestalt-terapia, psicanálise, terapia cognitivo-comportamental e outras linhas de trabalho partem de maneiras distintas de compreender o ser humano e de conduzir o processo terapêutico.

Conhecer um pouco sobre a abordagem utilizada pela profissional pode ajudar a pessoa a entender o que encontrará durante o acompanhamento. Ainda assim, nenhuma explicação teórica substitui a experiência construída na relação terapêutica. Na Gestalt-terapia, esse encontro ocupa um lugar central.

O que é a Gestalt-terapia?

A Gestalt-terapia é uma abordagem psicoterapêutica que compreende o ser humano como um todo. Pensamentos, emoções, sensações corporais, comportamentos, relações e condições de vida não são partes separadas: estão constantemente conectados e participam da maneira como cada pessoa vive e atribui sentido às próprias experiências.

Por isso, o trabalho terapêutico não se limita a identificar sintomas ou encaixar alguém em uma definição. Uma mesma dificuldade pode assumir sentidos muito diferentes de uma pessoa para outra. A ansiedade, por exemplo, pode estar relacionada ao medo de falhar, à necessidade de manter tudo sob controle, à dificuldade de colocar limites, às incertezas do momento vivido ou a diversas outras experiências. Compreender o que ela representa exige conhecer a pessoa que a sente.

Um aspecto importante da Gestalt-terapia é justamente compreender cada pessoa em sua singularidade. Sentimentos, comportamentos e dificuldades são considerados dentro de sua história, de suas relações, do ambiente em que vive e das possibilidades que encontrou para lidar com a vida até aquele momento.

A pessoa e o contexto em que vive

Na perspectiva gestáltica, ninguém existe de maneira isolada. Somos afetados pelas relações familiares, pela cultura, pelas condições sociais, pelo trabalho, pelas perdas, pelos vínculos e pelos acontecimentos que atravessam nossa história. Ao mesmo tempo, também participamos ativamente dessas relações e construímos maneiras próprias de responder ao mundo.

Isso significa que uma dificuldade emocional não é entendida apenas como algo que está “dentro” da pessoa. Ela também pode revelar como essa pessoa aprendeu a se proteger, a buscar aceitação, a evitar conflitos, a corresponder às expectativas ou a sobreviver em ambientes que, em algum momento, ofereceram pouco apoio.

Algumas formas de agir que hoje causam sofrimento podem ter sido recursos importantes em outros períodos da vida. Evitar demonstrar fragilidade, assumir responsabilidades excessivas ou se adaptar continuamente às necessidades dos outros talvez tenham ajudado alguém a atravessar determinadas situações. Com o tempo, entretanto, essas respostas podem se tornar rígidas e deixar pouco espaço para novas escolhas.

A psicoterapia permite olhar para esses modos de funcionamento sem reduzi-los a defeitos pessoais. A pergunta deixa de ser apenas “como eliminar isso?” e passa a incluir: “como isso se formou?”, “que função teve em minha vida?” e “do que preciso agora para responder de outra maneira?”.

O que significa trabalhar com o presente?

Uma das características mais conhecidas da Gestalt-terapia é a atenção ao aqui e agora. Isso não quer dizer ignorar o passado ou deixar de pensar no futuro. A história de vida continua sendo importante, mas é observada também a partir da maneira como permanece presente: nas emoções, no corpo, nas expectativas, nos receios e nos modos de se relacionar.

Ao contar uma experiência antiga, por exemplo, a pessoa pode perceber que prende a respiração, muda o tom de voz, sente vontade de chorar ou tenta rapidamente explicar e justificar o que aconteceu. Esses movimentos ajudam a compreender não apenas o fato narrado, mas como ele é vivido atualmente.

Da mesma forma, preocupações com o futuro aparecem no presente por meio da ansiedade, da antecipação de situações, da necessidade de controle ou da dificuldade de descansar. O aqui e agora é, portanto, o lugar em que passado, presente e futuro se encontram na experiência atual.

Durante a psicoterapia, podem ganhar espaço perguntas como: O que sinto diante dessa situação? O que acontece em meu corpo quando falo sobre isso? Como estabeleço limites? Como me aproximo ou me afasto das pessoas? Quais necessidades consigo reconhecer? Quais costumo deixar em segundo plano?

Não se trata de responder corretamente a essas perguntas, mas de ampliar a percepção sobre si e sobre a maneira como cada experiência acontece.

Consciência de si e novas possibilidades

Na Gestalt-terapia, ampliar a consciência não significa apenas compreender racionalmente uma situação. Muitas pessoas sabem explicar por que agem de determinada maneira e, mesmo assim, sentem que continuam repetindo os mesmos caminhos. A compreensão intelectual pode ser importante, mas o processo terapêutico também procura aproximar a pessoa daquilo que sente, percebe e necessita.

Esse movimento envolve reconhecer emoções, sensações, pensamentos, desejos, contradições e formas de entrar em contato com o mundo. Aos poucos, a pessoa pode perceber com maior clareza quando precisa descansar, pedir ajuda, aproximar-se, afastar-se, dizer não ou sustentar uma escolha.

Quanto maior a percepção sobre o que está acontecendo, maiores podem ser as possibilidades de responder às situações de maneira menos automática. A mudança não acontece pela imposição de um comportamento considerado ideal, mas pela construção de condições para que novas respostas possam surgir.

Isso também ajuda a compreender por que a Gestalt-terapia não propõe que a pessoa se transforme em alguém completamente diferente. O processo pode favorecer uma relação mais próxima e honesta consigo mesma, incluindo o reconhecimento de limites, recursos, necessidades e responsabilidades.

A relação entre psicóloga e cliente

O vínculo terapêutico não é apenas o cenário onde a terapia acontece: ele faz parte do próprio cuidado. A relação é construída por meio do diálogo, da presença, da escuta e do respeito à experiência de quem procura atendimento.

A psicóloga não ocupa o lugar de quem possui todas as respostas sobre a vida da outra pessoa. Ela oferece sua escuta, seu conhecimento e suas percepções para que, juntas, possam compreender o que se apresenta no processo. Isso não significa ausência de direção ou uma conversa sem propósito. Há um trabalho clínico cuidadoso, mas ele não é conduzido por receitas prontas.

Em alguns momentos, a profissional pode fazer perguntas, compartilhar algo que percebeu, chamar atenção para uma mudança na fala ou convidar a pessoa a observar uma sensação, uma emoção ou uma forma de se expressar. Também podem ser utilizados recursos e experimentos terapêuticos, sempre de acordo com o momento, os limites e as necessidades do cliente. A finalidade não é forçar uma reação, mas criar condições para que algo possa ser percebido e vivido de uma maneira nova.

Essa relação também pode revelar formas habituais de contato. O medo de decepcionar, a dificuldade de discordar, a necessidade de agradar ou a tendência a se afastar quando algo se torna doloroso podem aparecer no encontro terapêutico. Quando há segurança para olhar para esses movimentos, a própria relação se transforma em uma oportunidade de construir outras maneiras de estar com alguém.

A Gestalt-terapia busca eliminar sintomas?

O alívio do sofrimento e a redução dos sintomas são objetivos legítimos da psicoterapia. No entanto, a Gestalt-terapia procura compreender o que esses sintomas comunicam e como participam da vida da pessoa. Ficar apenas no esforço de suprimi-los pode deixar de lado necessidades, conflitos e condições que precisam ser reconhecidos.

Um sintoma não resume a identidade de ninguém. A pessoa não é a ansiedade, a depressão, o medo ou a dificuldade que a levou à terapia. Ela tem uma história, relações, potencialidades, vulnerabilidades e formas particulares de buscar equilíbrio. Por isso, o cuidado se dirige à pessoa que vive determinada dificuldade, e não apenas ao nome atribuído a ela.

Ao longo do processo, mudanças podem aparecer de formas diversas: perceber mais cedo quando algo não vai bem, compreender os próprios limites, comunicar necessidades, flexibilizar padrões, fazer escolhas mais conscientes ou encontrar apoio para atravessar momentos difíceis. Nem sempre são mudanças rápidas ou lineares. Muitas vezes, começam em pequenos movimentos que abrem espaço para uma vida mais possível.

Um processo construído no encontro

Não se trata de receber uma fórmula sobre como viver. O processo é construído a partir do encontro entre psicóloga e cliente, respeitando o momento, a história, o ritmo e as condições de quem procura atendimento.

A Gestalt-terapia convida a pessoa a olhar para si não como um problema a ser corrigido, mas como alguém que pode compreender melhor a própria experiência e ampliar suas possibilidades de escolha. É um percurso de contato consigo, com os outros e com o mundo — realizado com presença, cuidado e respeito pela singularidade de cada história.

Referências

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