
Sentir ansiedade em determinados momentos faz parte da vida. Ela pode aparecer antes de uma decisão importante, diante de uma mudança, em situações novas ou quando existe alguma preocupação. O problema é quando esse estado parece não ir embora e começa a ocupar espaço demais na rotina.
Há pessoas que percebem a mente constantemente antecipando o que pode dar errado. Outras encontram dificuldade para descansar, desacelerar ou permanecer no presente. Também podem surgir tensão, medo, irritabilidade e uma sensação frequente de estar em alerta.
Mais importante do que tentar encaixar todas essas experiências em uma lista é entender como a ansiedade acontece para você. O que costuma desencadeá-la? Como ela interfere nas suas escolhas, relações e atividades? O que você faz quando ela aparece?
A ansiedade também tem uma função
A ansiedade não é, por si só, um problema. Ela faz parte dos recursos que temos para reconhecer riscos, nos preparar para situações desafiadoras e responder ao que exige atenção. Antes de uma prova, uma entrevista, uma viagem ou uma conversa difícil, por exemplo, é esperado que o corpo fique mais mobilizado.
Nessas situações, a ansiedade pode aumentar a concentração e ajudar a pessoa a se preparar. Geralmente, depois que o acontecimento passa, o organismo consegue diminuir o estado de alerta e retomar gradualmente seu equilíbrio.
A dificuldade começa quando essa mobilização se torna frequente, intensa ou desproporcional ao que está acontecendo. A pessoa pode continuar em alerta mesmo quando não existe uma ameaça imediata, como se precisasse estar permanentemente preparada para algo que ainda não aconteceu.
A ansiedade deixa, então, de ser uma resposta pontual e começa a atravessar diferentes momentos do dia.
Quando a preocupação não consegue encontrar um fim
Uma das formas mais comuns de a ansiedade aparecer é por meio da antecipação. A mente tenta prever conversas, respostas, problemas e consequências, muitas vezes acreditando que, se considerar todas as possibilidades, conseguirá evitar erros, decepções ou imprevistos.
Pensar no futuro pode ser importante. Entretanto, quando esse movimento se torna excessivo, a pessoa pode passar muito tempo tentando encontrar respostas para situações que ainda não existem ou que não dependem inteiramente dela.
Mesmo depois de tomar uma decisão, pode continuar revendo suas escolhas:
“Será que fiz a coisa certa?”
“E se eu tiver esquecido alguma coisa?”
“E se algo der errado?”
“Será que deveria ter agido de outra maneira?”
Às vezes, essa preocupação é confundida com responsabilidade. A pessoa acredita que precisa pensar um pouco mais, conferir novamente, buscar outra opinião ou se preparar melhor. No entanto, a sensação de segurança costuma durar pouco. Logo surge uma nova dúvida, e o processo recomeça.
A tentativa de alcançar certeza absoluta pode ampliar justamente aquilo que se deseja evitar: a insegurança.
Um corpo que permanece em alerta
A ansiedade não acontece apenas nos pensamentos. Ela também pode ser percebida no corpo, ainda que nem sempre essa relação seja reconhecida imediatamente.
Podem surgir aceleração dos batimentos cardíacos, tensão muscular, aperto no peito, respiração curta, desconforto gastrointestinal, tremores, suor excessivo, dor de cabeça, tontura ou sensação de cansaço. Algumas pessoas relatam dificuldade para dormir; outras conseguem dormir, mas acordam como se não tivessem descansado.
Também pode existir uma inquietação difícil de explicar. Mesmo nos momentos em que seria possível parar, o corpo parece não acompanhar. A pessoa se mantém ocupada, procura alguma tarefa ou sente culpa quando tenta descansar.
Isso não significa que todo sintoma físico seja causado pela ansiedade. Alterações persistentes, intensas ou desconhecidas precisam ser avaliadas por um profissional de saúde, pois também podem estar relacionadas a outras condições. Ainda assim, reconhecer como o corpo participa da experiência emocional pode ajudar a compreender o que está acontecendo.
Quando a ansiedade começa a organizar a vida
A ansiedade pode ocupar espaço na rotina de maneiras pouco evidentes. Nem sempre ela aparece como uma crise intensa. Às vezes, manifesta-se nas decisões que a pessoa deixa de tomar, nos lugares que evita ou na necessidade de manter tudo sob controle.
Para reduzir o desconforto, algumas pessoas passam a evitar situações sociais, viagens, compromissos, conflitos, responsabilidades ou experiências novas. Outras organizam a vida com tanto cuidado que qualquer mudança de plano se torna difícil de suportar.
Também pode surgir a necessidade constante de confirmar se está tudo bem: reler mensagens, revisar tarefas muitas vezes, pedir a opinião de diferentes pessoas ou procurar repetidamente informações sobre uma preocupação. Esses comportamentos podem oferecer alívio momentâneo, mas nem sempre ajudam a construir segurança interna.
Pouco a pouco, a vida pode se tornar mais restrita. A pessoa deixa de agir de acordo com aquilo que deseja e passa a escolher principalmente com base no que parece menos ameaçador.
Produtividade também pode esconder ansiedade
Nem sempre uma pessoa ansiosa parece paralisada. Em alguns casos, ela se mostra extremamente produtiva, organizada e disponível. Mantém várias tarefas em andamento, tenta prever as necessidades dos outros e encontra dificuldade para interromper suas atividades.
Por fora, esse funcionamento pode ser valorizado como eficiência. Por dentro, porém, pode existir medo de falhar, decepcionar, perder o controle ou não corresponder às expectativas.
A pausa se torna desconfortável porque, quando as tarefas diminuem, pensamentos e sensações que estavam encobertos podem aparecer. Assim, permanecer ocupada funciona como uma maneira de não entrar em contato com o que está acontecendo internamente.
O problema não está em ser produtivo ou responsável, mas em perceber quando fazer se torna a única maneira possível de existir — e quando descansar passa a provocar culpa, angústia ou sensação de inutilidade.
A busca por controle diante da imprevisibilidade
A ansiedade frequentemente se intensifica quando a pessoa encontra situações que não consegue controlar. Mudanças, esperas, perdas, conflitos e decisões importantes nos lembram de que nem tudo pode ser previsto.
Na tentativa de se proteger, é possível criar rotinas rígidas, antecipar conversas, imaginar diferentes cenários ou tentar controlar as reações das outras pessoas. Essas estratégias não surgem sem motivo. Em algum momento, podem ter ajudado a pessoa a se sentir mais segura ou a atravessar experiências difíceis.
Entretanto, quando se tornam muito rígidas, acabam exigindo um esforço constante. Como a vida permanece imprevisível, a pessoa precisa aumentar cada vez mais a vigilância, sem alcançar a tranquilidade que procura.
Compreender essa dinâmica não significa abandonar toda organização, mas perceber a diferença entre preparar-se para uma situação e tentar eliminar qualquer possibilidade de incerteza.
Cada pessoa vive a ansiedade de uma maneira
Embora existam manifestações conhecidas, a ansiedade não pode ser compreendida apenas por uma lista de sintomas. É importante considerar a história da pessoa, suas relações, o momento que está vivendo e os recursos que encontrou para lidar com as próprias experiências.
Para alguém, a ansiedade pode estar relacionada ao medo de decepcionar. Para outra pessoa, pode aparecer diante da possibilidade de perder um vínculo, cometer um erro, adoecer ou não corresponder às expectativas. Também pode se intensificar em períodos de sobrecarga, mudanças, conflitos familiares, dificuldades profissionais ou perdas importantes.
Em vez de perguntar somente “como acabar com a ansiedade?”, pode ser necessário investigar:
“O que está me deixando em alerta?”
“Que ameaça eu percebo nesta situação?”
“O que estou tentando controlar ou evitar?”
“Do que preciso neste momento?”
Essas perguntas não oferecem respostas imediatas, mas ajudam a deslocar a atenção do sintoma isolado para a experiência da pessoa como um todo.
O olhar da Gestalt-terapia para a ansiedade
Na Gestalt-terapia, a ansiedade é compreendida dentro da experiência singular da pessoa e da maneira como ela se relaciona consigo, com os outros e com o ambiente. O objetivo não é simplesmente eliminar uma sensação considerada inconveniente, mas entender como ela se forma, em quais situações aparece e que função pode estar desempenhando.
Durante a psicoterapia, o cliente pode aprender a reconhecer com maior clareza seus pensamentos, sensações corporais, emoções e formas de agir. Esse processo favorece a percepção de necessidades que talvez estejam sendo ignoradas e de padrões que se repetem nas relações e nas escolhas.
Muitas vezes, a pessoa está tão envolvida com aquilo que pode acontecer que perde contato com o que está acontecendo agora. O futuro ocupa o primeiro plano, enquanto o corpo, os limites e as necessidades presentes ficam menos perceptíveis.
O trabalho terapêutico pode ajudá-la a recuperar esse contato, não como uma obrigação de permanecer tranquila ou viver apenas no presente, mas como uma possibilidade de diferenciar o que está acontecendo neste momento daquilo que está sendo imaginado ou antecipado.
Também pode favorecer a construção de novas formas de enfrentar situações difíceis. Em vez de responder automaticamente por meio do controle, da evitação ou da busca constante por garantias, o cliente pode ampliar suas possibilidades de escolha e encontrar maneiras mais flexíveis de lidar com a incerteza.
Quando procurar ajuda
Não é necessário esperar que a ansiedade se torne insuportável para buscar acompanhamento. A psicoterapia pode ser considerada quando as preocupações se tornam frequentes, quando o corpo permanece em constante tensão ou quando a ansiedade começa a interferir no sono, no trabalho, nos estudos, nas relações e nas atividades cotidianas.
Também merece atenção quando a pessoa deixa de fazer coisas importantes, vive em busca de confirmações, apresenta crises recorrentes ou sente que já não consegue descansar e desfrutar dos momentos de tranquilidade.
Dependendo da intensidade, da duração e dos prejuízos envolvidos, uma avaliação médica ou psiquiátrica também pode ser necessária. Psicoterapia e acompanhamento médico não são recursos concorrentes. Quando indicados, podem fazer parte de um cuidado integrado, respeitando as necessidades de cada pessoa.
Não se trata de transformar toda preocupação em diagnóstico. A ansiedade faz parte da existência e pode se intensificar em determinados períodos. A questão é observar quanto espaço ela está ocupando e se ainda existe liberdade para escolher, descansar, relacionar-se e seguir a própria vida.
Cuidar da ansiedade não significa nunca mais sentir medo, preocupação ou insegurança. Significa construir recursos para reconhecer essas experiências, compreender o que elas comunicam e atravessá-las sem permitir que conduzam todas as escolhas.
Referências
ANTONY, Sheila Maria da Rocha; RIBEIRO, Jorge Ponciano. A criança com transtorno de ansiedade: seus ajustamentos criativos defensivos. Revista da Abordagem Gestáltica, v. 15, n. 1, 2009.
PERLS, Frederick; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.
PINTO, Ênio Brito. Psicoterapia de curta duração na abordagem gestáltica: elementos para a prática clínica. São Paulo: Summus, 2009.
RIBEIRO, Jorge Ponciano. Gestalt-terapia: refazendo um caminho. São Paulo: Summus, 1985.
SCHMIDT, Aline Cardoso; BARBOSA, Larissa. O tratamento da (pessoa com) ansiedade à luz da Gestalt-terapia. IGT na Rede, 2023.
